existe uma rear window para cada um dos meus olhos. veja, é infantil a minha curiosidade. não há maldade no teor das minhas ventanas oculares, mas ineditismo irresistível. dos meus olhos respinga antídoto contra o veneno do meu mundo, dos meus outros. quem teria pálpebras assim empapuçadas, senão eu? que as minhas pálpebras abrigam essas duas bolotas que são os meus olhos dilatados — daí serem gorduchinhas. olhudinha!, dizia-nos M.N.

eu poderia dizer ao casal que tardiamente chegava e no Argentino vazio almoçava que eu vi tudo, e desta maneira mesma eu diria: eu vi tudo, hein. e prosseguiria: cês tão de parabéns, hein. que bonitos que cês tavam./ dançando purple rain coladinhos./ fiz-me contaminar, e muito me bobeei. o meu riso encheu todo o Juvevê. nem que eu morresse três vezes, pensei. inalcançáveis dois, veja. espécime de mito. as formigas do arredor do casal que dança dançavam purple rain: tragam oferendas para o casal que dança.
1
eu não me lembro de quase nada do que eu pensei pela manhã, entre dormir um tanto e outro. é sempre um parto dizer. por vezes o choro está ali, entre a faringe e as amígdalas, e simplesmente não sai. eu fui até a catedral e eu quis lacrimejar. não posso com gente fazendo prece, e Jesus tinha cabelo. de uma forma tal, bem tal, as religiosidades e o Deus ainda me arrebatam. acho que eu sempre serei um pouco assim, teísta-sincretista. papo a papa santa dos Hare e meto nicotina por cima. sincretismo é isto.

pela manhã, pensava nos derradeiros meninos. por vezes acontece dos meninos entalarem ali, entre a faringe e as amígdalas. é quando nos brotam uns probleminhas.

2
és... firminha! taí, gostei! — disse-me um velho seboso. engana-te, verme! — deixei de dizer. não lhe deveria minúcias, mas tenho é derme mole, inestruturada. sei que o subterrâneo de minha pele é puro água.
2.1
pois que hoje me adentra inteiriço rio, de aguaceiro infindo. me acabo em soluços, e adormeço. meus panos guardam o pH de minhas lágrimas, terceiro segredo. mantra e os sons me ninam, eu rio, eu Copacabana-esta-semana. encharcada desfaleço.
2.2
não impeço passagem de pranto. deixo a goteira salubre riscar caminho por sobre cara, corpo, ponto-coração.
14h40 as abelhas deixaram o templo dos Hare. dona Kali sempre ajuda. almocei e repeti. saí sem ser vista, mas paguei. da próxima vez, chego um tanto mais cedo./ 15h26 dois paraguayos me oferecem birita. tomo da birita co'a saliva que ficou. tomo da saliva do paraguayo./ 18h30 canto fera ferida na agência bancária. que bonita a minha voz na acústica do Bradesco vazio./ 18h35 volto pra casa carregando compras. ando muitas vezes só, vez ou outra ando acompanhada. finjo que já me acostumei. tenho a casca dura e o miolo mole dos caranguejos e choro muito ouvindo Roberto, mas não sou canceriana./ 19h05 estou a 200 metros da quiti e falta em iluminação. teias de aranhas são teias naturais. as aranhas pertencem à natureza, assim como nós. algumas gentes são mais natureza que outras.
deitei-me sobre a grama e sorvi-me. havia em mim forte espectro de energia, pois que eu me achava interessada na vida e a vida se achava interessada em mim. esqueci-me de meu branco imenso corpo e devorei Sófocles. amei ao mundo e nele inclui-me. as formigas lembraram de meu corpo e tascaram-me mordiscadinhas de amor erótico, bem por detrás das coxas. as formigas lembrarão meu nome, pois que eu as amei e compreendi do erotismo justaposto. tenho perdido madrugadas inteiras torturando-me, e as formigas sabem meu segredo e elas dizem-me forget him. as bolhas de minha derme, quando eu as desfaço, dizem-me forget him. as flores do jardim de nossa casa imaginária, quando eu as recrio, dizem-me forget him. também a minha cara enlouquecida, mesmo agora, quando eu a vejo dentro do fundo deste copo de pesares, distorcida, diz-me forget him.

nada posso, penso. penso que nada posso. quem — ou quê — com esta febre poderá?
não há vida em Maria Maria 1. dejetos seus misturam-se a dejetos de estranhas meninas. ouça-me, isto não é uma comuna! recuso-me a compactuar com semelhante panfleto! não há liame, não há amor. céus! tampouco há diplomacia. viste a cara da menina, suas reações primárias, aquelas de todo neném? pronde vamos com tamanha brutalidade n'alma? és bruta! — ensejei dizer e cuspiria. enlouquecerei em meses. Francesco, o santo de estimação em madeirinha, não mais quer dividir a estreita cama comigo. deu pra chamar-me Impura, vês. e Esquecida. minhas mulheres olham-me, mas não há mais eu. pois eu não canto. minhas cordas vocais mais profundas — não as periféricas, dedicadas à fala e aos gemidos — são agora como densas rochas cobertas por limo. eu não mais sei cantar, pois eu não canto. queimei o meu último incenso hoje, pela manhã. eucaliptus. não haverá mais incenso. o cheiro do incenso desagrada os narizes requintados de nossas meninas. nossas meninas dividem seus dejetos conosco. em Maria Maria 1 não se queima incenso nem se faz cantoria. também não há homem aqui. gosto de respirar o cheiro que vem do incenso e acho que gosto de fazer cantoria. de homem eu gosto um pouco. minto. vês? fugirei daqui.
dias de fome (mais que de febre). sentada, Namaria está só. a mesa é para quatro. fim de festa sábado, é noite. mordida e meia dada, Namaria engole o pão. beberica, enquanto espreita, escondendo a carinha por detrás da porcelana branca, o pingado — lembranças do interior do estado. olha praquelas famílias fazendo as suas compras semanais, pensa nas suas histórias. inventa histórias. pensa nos seus, em tia Erre e nos outros. chorara dia passado. mentira sobre não sentir saudades. aquelas memórias vieram-lhe como uma tapa ardida e bem dada em sua bochecha de pêssego. “chora, santa, chora mais. limpa teus alvéolos.”

as mãos de seu homem a acalmam. estar na (e sob a) presença de seu homem é como que entrar num doido mistério em banho-maria. mornidão de cobertor, um confortozim. funciona mesmo assim: depois de fogo trepidante, banho-maria — daquilo que ela e ele sabem que é tão bom. gosta assim. seu homem sabe das coisas. comporia odes a seu homem, não fosse seu orgulho de fêmea inda latente. sua grande amiga, Euzebinha, lhe diria: “fazes é bem”.
e cri. quando o homem surgiu da fumaça das ruas, eu cri. eu esvaziei o peito, eu deitei o copo e derramei o líquido velho que continha o meu peito./ deixo o homem entrar./ o homem dá piruetas sobre o solo de meu peito, rasga e esmigalha uma minha aorta e com as migalhas dela dá de comer aos pombos. dá festas pagãs em minhas tripas, faz rituais com minhas córneas./ instaura nova coisa — púbica. dá-me corda, como que num brinquedo, e sai andando. ri de meu fogo.

um dia o homem percebe o meu transe perante as coisas do mundo, e perdoa o meu silêncio, e não me estranha tanto.