deitei-me sobre a grama e sorvi-me. havia em mim forte espectro de energia, pois que eu me achava interessada na vida e a vida se achava interessada em mim. esqueci-me de meu branco imenso corpo e devorei Sófocles. amei ao mundo e nele inclui-me. as formigas lembraram de meu corpo e tascaram-me mordiscadinhas de amor erótico, bem por detrás das coxas. as formigas lembrarão meu nome, pois que eu as amei e compreendi do erotismo justaposto. tenho perdido madrugadas inteiras torturando-me, e as formigas sabem meu segredo e elas dizem-me forget him. as bolhas de minha derme, quando eu as desfaço, dizem-me forget him. as flores do jardim de nossa casa imaginária, quando eu as recrio, dizem-me forget him. também a minha cara enlouquecida, mesmo agora, quando eu a vejo dentro do fundo deste copo de pesares, distorcida, diz-me forget him.

nada posso, penso. penso que nada posso. quem — ou quê — com esta febre poderá?
não há vida em Maria Maria 1. dejetos seus misturam-se a dejetos de estranhas meninas. ouça-me, isto não é uma comuna! recuso-me a compactuar com semelhante panfleto! não há liame, não há amor. céus! tampouco há diplomacia. viste a cara da menina, suas reações primárias, aquelas de todo neném? pronde vamos com tamanha brutalidade n'alma? és bruta! — ensejei dizer e cuspiria. enlouquecerei em meses. Francesco, o santo de estimação em madeirinha, não mais quer dividir a estreita cama comigo. deu pra chamar-me Impura, vês. e Esquecida. minhas mulheres olham-me, mas não há mais eu. pois eu não canto. minhas cordas vocais mais profundas — não as periféricas, dedicadas à fala e aos gemidos — são agora como densas rochas cobertas por limo. eu não mais sei cantar, pois eu não canto. queimei o meu último incenso hoje, pela manhã. eucaliptus. não haverá mais incenso. o cheiro do incenso desagrada os narizes requintados de nossas meninas. nossas meninas dividem seus dejetos conosco. em Maria Maria 1 não se queima incenso nem se faz cantoria. também não há homem aqui. gosto de respirar o cheiro que vem do incenso e acho que gosto de fazer cantoria. de homem eu gosto um pouco. minto. vês? fugirei daqui.
dias de fome (mais que de febre). sentada, Namaria está só. a mesa é para quatro. fim de festa sábado, é noite. mordida e meia dada, Namaria engole o pão. beberica, enquanto espreita, escondendo a carinha por detrás da porcelana branca, o pingado — lembranças do interior do estado. olha praquelas famílias fazendo as suas compras semanais, pensa nas suas histórias. inventa histórias. pensa nos seus, em tia Erre e nos outros. chorara dia passado. mentira sobre não sentir saudades. aquelas memórias vieram-lhe como uma tapa ardida e bem dada em sua bochecha de pêssego. “chora, santa, chora mais. limpa teus alvéolos.”

as mãos de seu homem a acalmam. estar na (e sob a) presença de seu homem é como que entrar num doido mistério em banho-maria. mornidão de cobertor, um confortozim. funciona mesmo assim: depois de fogo trepidante, banho-maria — daquilo que ela e ele sabem que é tão bom. gosta assim. seu homem sabe das coisas. comporia odes a seu homem, não fosse seu orgulho de fêmea inda latente. sua grande amiga, Euzebinha, lhe diria: “fazes é bem”.
e cri. quando o homem surgiu da fumaça das ruas, eu cri. eu esvaziei o peito, eu deitei o copo e derramei o líquido velho que continha o meu peito./ deixo o homem entrar./ o homem dá piruetas sobre o solo de meu peito, rasga e esmigalha uma minha aorta e com as migalhas dela dá de comer aos pombos. dá festas pagãs em minhas tripas, faz rituais com minhas córneas./ instaura nova coisa — púbica. dá-me corda, como que num brinquedo, e sai andando. ri de meu fogo.

um dia o homem percebe o meu transe perante as coisas do mundo, e perdoa o meu silêncio, e não me estranha tanto.
banhava-se Euzebinha. seu banho era morno, qual sua vida morna. massageando a xixoca com sabão de glicerina, sentia triste ardorzinho. Euzebinha estava derrubadinha porque dodói a xixoquinha. e xixoquinha dodói perturbava os coitos de sábado à noite.

embrulhada na toalha branca feito prenda e cheirosíssima feito capim-limão arrancado, recebeu o chamado do homem. “podes chamar quando quiseres”, havia dito dias atrás. ele chamou-a. Euzebinha foi, de xixoca dodói e tudo.

Deus! linda a cara do homem. Euzebinha adorava caras mais que corpos. e aquela, decididamente, era uma ótima cara. enamorou-se. enamorar-se muitas vezes é uma das coisas lindas./ pegou-a pelo braço, coisa linda. foram juntos caminhar.

a casa, a bebida, o cigarro compartilhado. a vontade. o colchão. o rijo — belo pau. o coito./ e a vala — perpétuo jazigo./ quem nunca se afunda no pós-coito, que o primeiro calhau atire./ tenta o dedo do homem desfazer as rugas na testa contraída de Euzebinha. “sobrancelhas de Maysa”, pensa. estranham-se./ seguem estranhando-se.
arreganhadas as duas perninhas do corpo, prostrado dum solavanco o tronco todo, pendida a cabeçorra magnífica, vidrados os olhões em direção à fenda em pelo, debaixo do umbigo, molhada de vermelho./ — seja bem-vinda! — gritava lindamente Anamaria.

do ponto exato da fenda, irrompe um pequeno pássaro de nome Tié. ensopado do líquido rubro, ele primeiro cambalhota torto e desliza sobre o mato, depois alça baixo, médio e alto voos. some./ corre doida Anamaria. salta por sobre pedras, bugalhas, lagartões e frutas podres. larga as roupas que inda restam no chão e faz o corpo subir. encontra e captura o Tié, tasca nele um beijo mais molhado que o molhado vermelho de sua fenda e grita: “Tié de minha fenda! és meu, Tié!”. em que o Tié ri fininho e escorrega mansinho pra fora do toque quente da menina, que também ri fininho e aprova./ junta-se o Tié da fenda a outros muitos tiés de outras tantas fendas, num belo bolo compacto. inicia-se alvoroço e os tiés — que nunca souberam parar de esfregar seus botõezinhos —, duma fricção demais, se matam uns aos outros. caem despedaçados sobre o mato cinza e, numa nova liga, se tornam rio fluente./ o rio flui e aperta o passo na busca da fenda de Anamaria, que é a nascente pronde ele quer voltar./ Anamaria gosta do jogo e ri mais um pouquinho, enquanto corre — agora pro lado oposto. o rio rubro logo atrás, em disparada./ braços e peito abertos, olhões cerrados, Anamaria finca os pés que são raízes, inspira profundo — aceita e recebe. apoteótico, adentra o rio pela fenda descoberta. mil e quinhentos mililitros por segundo, muito bem distribuídos. e Anamaria mordisca os lábios da boquinha e geme baixinho, pois sente coisa linda./ inundada do molhado vermelho, recendendo a humo, sobresiste cíclica e sempre Anamaria.
gretas se abrem a cada meio milímetro de meu tronco e das gretas esporra amargo leite/ —pensei, sob a ducha de tua casa./ eu nunca pensei que marcasse tanto o furo do chumbo./ mi'lagrimelas banham os fios de meu cabelo.

ri-me. e volvi a ser criança, com minha cara de doida de quando estou só. criança doida e linda, bem do jeito que eu gosto./ sou criança erotizada, como Lori Lamby.

eu trouxe Francisco comigo, ele tem um canto feito o meu. pus vela e ponho incenso, que é bom.

vou-me embora/ —criar miolos./ amanhã já é tarde.

canta-se lindo no quarto ao lado./ faz mais de um mês que eu não canto/ —os afro-sambas.